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Pedal: Rio-Angra-Paraty-Aparecida-SJCampos

Vou resumir o mais que der pq, de fato, foram 4 dias de vida mt intensa, vi coisa pra caramba, foi uma grande experiência de vida não só de pedal. Só sei dizer que VALEU MUITO A PENA. Faria tudo novamente.

Mapa:
http://picasaweb.google.com.br/sv.anexos01/PedalRio_Angra_Paraty_Aparecida_SJCampos#

Fotos:
http://www.bikely.com/maps/bike-path/Rio-Angra-Paraty-Cunha-Aparecida-S-J-Campos

Total pedalado: 503,7 km
Velocidade média: 17,6 km/h
Velocidade máxima: 65 km/h
Horas de pedal: 28h 28m
Altimetria máxima: 1500m
Período: 31/01/09 (7:24h) – 03/01/10 (13:52h)
Municípios que passsei:
RJ: Rio de Janeiro-Itaguaí-Mangaratiba-Angra dos Reis-Paraty
SP: Cunha-Guaratinguetá-Aparecida-Roseira-Pindamonhangaba-Tremembé-Taubaté-Caçapava-São José dos Campos
Bike: Kona Cinder Kone, 27 marchas, bagageiro traseiro, bolsa frontal.

——————-

1º dia – 31/1 – Rio_Angra dos Reis – 180km

Peguei a barca das 7 da manhã, confesso que com um friozinho na barriga, em razão da dificuldade que pressentia, pelo tempo, pela distância, mas a FÉ foi maior. No fim pude sentir que ELE me guiou até o destino final até de um modo mais fácil do que parecia, mesmo tudo apontando ao contrário.

Chovia bem já na saída da Praça XV, às 7:24h. Até o Aterro, praias da orla carioca, que vc vai passando só pela ciclovia é moleza. Mas já na subida da Niemeyer a primeira dificuldade chegou. O trânsito pela manhã tem sentido só de São Conrado pra Z.Sul e eu peguei os carros ao contrário muitas vezes tirando fininho e jogando mt água em cima. Mas t.b. com cuidado passei o trecho. Na praia de São Conrado dei uma parada pra relaxar e fazer um lanchinho de 5 min. Subi a estrada do Joá, porque seguir pelos túneis da autoestrada seria um perigo só! Até que subi tranquilo apesar do peso da bagagem. Desci, passei a passarela e dei uma parada no Jardim Oceânico para dar uma acertada no bagageiro. Isto ainda seria feito várias vezes pois só no segundo dia achei uma real boa posição para amarrar a barraca e o isolante térmico.

Na Av. Sernambetiba a chuva apertou lá pelas 9 mas eu segui em frente, alcançando o Recreio e o Pontal. Segui pela Estrada do Pontal até a Av. das Américas. Tive algumas dúvidas por ali e perguntei pra não me complicar. A subida de Guaratiba já tinha bastante trânsito e eu fiz com mt calma. De lá de cima tem um visual bacana da baixada de Guaratiba. Eu tinha até uma idéia de passar por Pedra de Guaratiba mas com aquele tempo eu desisti.

Passei por uma reta bem grande ao lado do CETEX (Centro Tecnológico do Exército), a Embrapa e alguns ranários. É um trecho bem ermo, cruzei por uns 2 ciclistas só, e fiz o mais rápido q pude. No final tinha um poção d’água, contornei um trevo e segui em direção à Sepetiba. Nesse trecho já vi vários bairros alagados. Quando passei da entrada para Sepetiba vem um asfalto melhor, uma avenida duplicada. Ali parei, quase meio-dia para fazer um lanche. Chovia, não muito. Liguei pra casa para dar notícias.

Logo atingi o centro de Santa Cruz, estava bem engarrafado. Fui passando aquele trânsito todo até dar numa ciclovia (depois do Oeste Shopping). Como não conhecia nada ali, parei e perguntei pra 2 ciclistas que me disseram que eu cortaria caminho indo pela Av. João XXIII. Me explicaram q no final tinha uma tal CSA, atravessaria uma cerca e estaria em Itaguaí. Assim fiz. Peguei uma reta e dei lá na tal cerca, vc passa uma ponte nova e vê a COSIGUA à esquerda. Passa novamente por uma região desértica, tinha bolsões de água, mas logo vem a periferia de Itaguaí. Perguntei novamente como q fazia para retornar à Rio-Santos e me deram a dica num posto de gasolina.

Chegando no também engarrafado centro de Itaguaí, achei um lugar q vendia bananas e parei para comprá-las. Afinal este é um dos combustíveis principais do cicloturista – é como se fosse o “óleo do motor do carro”. Abastecido, subi uma ponte alta sobre a via férrea e encontrei o trevo da Rio-Santos. Aí desabou uma nova pancadona de chuva q serviu para me animar. Pedalei forte ali. O trânsito estava grande, mas o acostamento era bom.

Depois que acaba o trecho duplicado vem a subida pra Muriqui. Por volta de 13:40h eu parei para lanchar. Comi um sanduíche de ovo+queijo (dei o hamburguer pro cachorrinho – veja na foto). E uma água de coco geladona pra hidratar. Um motorista perguntou pra onde eu ia e me avisou que no caminho encontraria muitas barreiras, árvores caídas, q ‘tava chovendo bem lá pra frente.

Segui pela Rio-Santos com todo o cuidado sempre olhando bem no retrovisor. Trocava de pista seguindo pelo acostamento em direção contrária sempre que vinham subidas mais longas pq a rodovia abre mais uma pista pros carros e deixa sem acostamento. Então não fica seguro de pedalar por ali. Valia mais a pena seguir pelo acostamento da outra, ainda mais porque o fluxo de carros estava todo em direção à Angra. Passa a entrada de Coroa Grande, depois Mangaratiba. Tem uns trechos de subida mais forte mas logo vêm as descidas e vc desconta. 9-11 km/h pra subir, 35-40 pra descer.

Os 2 túneis que têm na estrada são meio sinistros de atravessá-los pq não tem qq acostamento e dá a impressão de a largura da estrada diminuir mais. Passei com cuidado absoluto dando sinal para os veículos a todo o momento. Foram os piores trechos de toda a viagem. Depois ainda passei por um pedregulho caído no meio da estrada e por uma árvore quase tombada numa descida de qual um dos galhos chegou a bater no capacete!

Lá pelas 6 já estava bem perto de Angra e a chuva tinha dado uma trégua. Faltando uns 15km pra chegar na cidade, o pneu da frente esvaziou rápido. Há muito tempo que eu não via acontecer isso. Já esperava alguma furada mas sempre no traseiro. Menos mal. Porque foi até mais fácil de trocá-lo. Parei num local bom, só chuviscava. Só levei mais tempo pra bombá-lo porque essa minha bomba realmente tá muito fraquinha. Na próxima já levo um equipamento decente.

Seguindo com todo o cuidado dali pra frente, atingi a periferia de Angra (o estaleiro Verolme) e a entrada de Angra já no cair da noite. Não dava evidentemente pra ir até Mambucaba como era minha previsão inicial (mais de 20km eu achava…). Completei 180km no Centro de Angra.

Chegando, procurei logo algum local pra comer e dormir. Nos 2 primeiros que eu encontrei estavam cheios, afinal véspera de Ano Novo. E faltava água no local. Por fim, fiquei numa “espelunquinha” chamada de Hotel Angra, mas pelo menos tinha um local legal pra deixar a bike. Só pensava em comer! Meu amigo, Flamary, me ligou quando começou a chover mais forte e me sugeriu uma boa macarronada. Foi o que pedi – com 2 ovos! Me senti outro depois de comê-la mas quando saí para retornar ao hotelzinho já ‘tava chovendo pra caramba.

O resto da estória vcs já sabem, foi aquela tragédia noticiada no dia seguinte. Quando eu retornei ainda consegui dar um alô pra casa avisando onde passaria a noite, mas logo me recolhi ao quarto, já tudo escuro, pois a energia faltara. A chuva que se seguiu ali foi de arrepiar, eu custei a pegar no sono. Não vi nem a virada exata da meia-noite, acordei foi às 3 da manhã com um barulhão incrível de chuva. Ali percebi que as notícias não seriam boas no dia seguinte. Poucas vezes na vida havia sentido chover tanto.

2º dia – 1/1 – Angra_Paraty – 122km

De manhã, logo que acordei vi as goteiras no quarto. Arrumei rápido as coisas e empurrei a bike para fora daquele hotelzinho “safado”. Muita água no chão, mas nas bicas que é bom, nada! Não chovia, estava até sol claro, mas o povo na rua só comentava assustado o que tinha acontecido. Alguns até me aconselharam a não prosseguir. Mas pensa bem: – o que eu iria ficar fazendo ali numa cidade arrasada, sem luz e água em vários pontos. A saída para a Rio-Santos estava com o tráfego parado. Passei por alguns desmoronamentos e quando subi até a BR-101 já deu pra ver o tal Morro da Carioca “riscado”. Veja as fotos no meu Picasa. Deu pra ter a noção do que o temporal havia feito.

Seguindo em direção à Paraty fui passando por vários trechos desmoronados. Muita lama e barro no asfalto. Mas sempre em encostas que já haviam sido tocadas pela mão (errada) do homem. Parei num supermercado lá pelas 9 e fiz meu desjejum (iogurte, banana, queijo, ameixas). Daí em diante a estrada melhorou um pouco. Mas após um trecho plano veio outra subida com o tráfego inteiramente parado. Lá adiante pude ver a razão. Um pedaço de morro havia descido por inteiro. Só consegui passar por uma trilha que havia sido aberto por uma área lindeira da estrada. Algumas motos ainda passaram comigo, além dos pedestres. Larguei os carros pra trás e fui em frente.

O sol começou a esquentar e depois da entrada para Lídice eu tirei a capa, passei filtro solar e fui melhorando o ritmo. Segue um trecho plano, passei por várias pontes sobre rios com nível d’água elevado, vindo direto da Serra da Bocaina que se apresentava imponente à direita. Dali em diante o trecho foi muito bonito de fazer. Foram pequenas subidas e descidas costeando o mar, sempre verde. Um visual bonito. Já fora da região em que havia presença mais desordenada do homem, quase não vi barreiras caindo. É aquilo que a gente sabe, o próprio homem “cava a sua sepultura”. Lugar de encosta não se faz casa. Até os animais sabem disso.

Bom, passei pelo Frade, pela Usina Nuclear, pela Vila Histórica de Mambucaba (à esquerda), Perequê (à direita, é onde desemboca a “Trilha do Ouro”) e + ou – em torno de meio dia tinha atingido a Praia ….. Usava sempre a estratégia de quando a pista em direção a Santos ficava sem acostamento do meu lado, passava para o lado contrário, sempre olhando com muito cuidado no retroviso antes de desviar.

Atravessei a divisa Angra-Paraty + ou – meio-dia mas ainda tinha muita coisa pra pedalar até chegar na entrada de Paraty histórica. 100 km separam o centro de um município do outro. Na Praia de São Gonçalo dei uma parada para lanchar. E tome pedal. O trânsito estava tranquilo, por isso quando o asfalto começou a ficar ruim (já no município de Paraty), deixava o acostamento para ganhar mais velocidade na pista. Sempre de olho no retrovisor.

Duas da tarde, começa a pintar mais casas, Paraty chegando. Pensei até em parar para almoçar, mas resolvi esticar até a estrada Paraty-Cunha, procurar uma opção melhor por lá. Ainda parei numa tal de “Toca do Pastel”, mas não gostei do ambiente. Muito carro parado, o cara não dava conta do atendimento – ia perder muito tempo ali. Ainda bem que algumas vezes pintava uma bica d’água na estrada e enchia o “radiador”. Água purinha, fresca.

Devo ter alcançado o trevo para Paraty-Cunha (RJ-165) lá pelas 3 e 15 e avancei logo pela estrada estreita. Uma placa logo te avisa que após o km 10 está interditada para o trânsito. Ao lado de uma acanhada ciclovia à esquerda, vc vai subindo levemente até chegar a um núcleo de casas. Num posto de gasolina parei para perguntar por almoço e me informaram que logo à frente tinha opções. E de fato, cheguei a um self-service bem legal onde parei e comi BEM. Afinal seria a única refeição farta do dia, porque à noite seria de acampamento na serra.

Depois de relaxar, parei num mercadinho, comprei uma maça e um isotônico, porque a subida iria começar. Vem devagar depois de uma ponte mas depois aperta e fica bem íngreme. Fui pedalando devagar, vencendo metro a metro, 4 a 5 km/h. Parei em outra vendinha, telefonei pra casa, avisando que seria a última ligação do dia. Tomei um refresco gelado e fui em frente. Quer dizer pra cima. E sobe… Subi até o km 7 quando encontrei um casal que me perguntou da cicloviagem. Eram de SP. O carro deles tinha quebrado. Falei que ia parar daqui a pouco (já eram quase 6) e estava buscando um lugar legal para armar a barraca. O motorista me disse que à frente encontraria vários. De lá já se avistava Paraty bem do alto.

Primeiro pensei em parar num recuo da estrada junto à entrada de um sítio, mas um pouco mais a frente, onde tinha uma cachoeira, achei o local ideal naquele dia. Sem problemas de barreira pra cair, plano e até poderia tomar um banho gelado. Comecei a armá-la exatamente 18:30h (ainda claro). Tomei banho, mesmo sem mergulhar, pois que a água estava um gelo e não havia mais sol. Fiz meu lanche às 7 e meia e assim que escureceu liguei o mp3 para embalar o sono que vinha. O corpo cansado pedia uma parada.

A noite foi muito calma, afora o barulhão que a cachoeira fazia. Eu só acordei no meio da noite uma vez, meio assustado achando que era chuva! Reflexo da noite anterior. Mas a Lua (quase) Cheia iluminava a barraca. Cara, muito show dormir ali.

3º dia – 2/1 – Paraty_Aparecida – 100km

O terceiro foi o melhor, o ponto “alto” deste pedalzão. Não só, literalmente, pela altitude atingida, mas pela diversidade de paisagens, de clima, pela dificuldade, pela chegada no Santuário, tudo….

Levantei 7 e meia, com o despertador sendo um passarinho que fazia cantoria ali perto. Tomei uma mistura com isotônico e fiz outra com BCAA e a água geladinha da serra para levar. Desarmei a barraca, com calma, arrumei tudo no bagageiro, desta vez melhor ainda. Remontei a roda dianteira da bike (tirei ela por segurança e deixei dentro da barraca). Ás 8:20h o “bonde partiu”. Fui subindo bem devagar, 1 km adiante vinha o km 10, onde começa o chão batido da Estrada Real. E fica bem + sinistro de pedalar. Mas o visual é show de bola, ar puro, verde nativo. Só que em alguns pontos se vc perder o embalo vale mais empurrar.

Porém, subi quase o tempo todo no pedal, ainda que devagarzinho, pq até empurrar cansava +. É uma altimetria das piores. Quase 10 da manhã cheguei a um mirante em que vc tem uma visão monumental da Serra da Bocaina. Parei uns 20 minutos ali para respirar e apreciar aquele presente da natureza. Agradeci a Deus o fato de estar ali. União perfeita: corpo+meio-ambiente+mente+bicicleta.

Alivia um pouco a subida até se chegar a um ponto em que a estrada segue pelo “top” da serra. Mas o terreno estava um saibro molhado, dificultava bastante pedalar. Em outros trechos tinha MUITA pedra solta e preferi não arriscar muito, desci e caminhei com a bike. Cruzei com um grupo de motoqueiros que me disseram que logo-logo chegaria o fim da descida. Tinha também muita água pelo caminho o que facilitava a hidratação. Mas não vou negar, o desgaste é imenso até se atingir os 1500m, na divisa Rio-SP. Foram 3 horas e meia subindo. Porém, cercado pela natureza vc nem se sente sozinho. Eu, por exemplo, fico anestesiado, sinto muita falta agora de estar no meio daquele ambiente – o literal sentido deste termo (“meio-ambiente”) poucas vezes compreendido por quem vive no caos das megacidades.

11:40h + ou – avistei a placa da divisa. O asfalto recomeça e deixa-se o Parque da Bocaina pra trás. Começa uma descida incrível, numa temperatura muito agradável, lá em baixo o planalto de Cunha. Logo vem uma cachoeira linda-linda, veja a foto no Picasa. Parei um pouco para namorá-la… e soltei a bike na descida. Nesse trecho alcancei a maior velocidade de todas: 65km/h.

Interessante é que depois deste violento declive, surge “do nada” um novo trecho de subida no qual “parece” que vc sobe tudo aquilo que tinha descido há pouco. Sobe forte e cansa vc. Não sei se eu cansei mais pelo sol que começava a ficar cada vez + forte, quase 1 da tarde. Ainda bem que a paisagem é também cativante, são vários pequenos sítios, a maioria deles voltada para o turismo ecológico, gastronômico, vale a pena conhecer aquela região de Cunha. Parei num sítio daqueles para pedir uma água gelada quase antes de chegar à entrada principal de Cunha. Ali um senhor do local me contava que a chuva no dia anterior tinha sido muito forte (8 horas seguidas) e que o município havia sofrido bastante. Como depois se soube no noticiário e eu poderia ver alguns efeitos adiante.

No final de uma boa subida vê-se a cidade de Cunha. Pensei em entrar, mas para não atrasar muito, vi um garoto numa barraquinha e perguntei se tinha algo por ali para comer. Ele disse que só pastel e caldo. Eu que já estava a fim de um bom caldo de cana, fiz meia-volta e parei. Era uma família bem simpática, um dos garotos até estava em uma bicicleta e notei que ficou “vidrado” na minha. A irmã mais velha preparou o caldo com o pai numa moenda manual. O pastel de queijo foi frito no interior da casa. Tomei o caldo e comi com regalo pois tudo foi preparado com aquele toque de interior, bem caseiro. Botei o resto da caldo gelado na caramanhola.

Eles me explicaram que tinha muita descida até Guaratinguetá, mas algumas subidas apareceriam no caminho. Logo no fim do primeiro declive, surgiu a ponte cuja “cabeça” havia sido levada pelas águas do rio e deixou o município de Cunha isolado por algum tempo. Só passei por um pontilhão de madeira com a bike às costas. Mais uma vez os carros ficaram me “olhando”, parados.

A próxima ponte que quase estava para cair foi aquela sobre o Rio Paraitinga. Mais abaixo o rio fez aquele estrago que nem eu sabia, mas depois o Brasil inteiro ficou sabendo pela TV de como a cidade histórica de São José do Paraitinga ficou debaixo d’água. Passei e fui em frente. O sol esquentou de vez e cada subida que vinha parecia bem maior do que era, confesso. Num posto de gasolina, meio isolado tomei mais um BCAA bem geladinho para aguentar a dureza do percurso. A estrada também esburacada contribuía para a dureza do trecho. São 50km de Cunha a Guaratinguetá.

Passando uma capela de Santo Expedito eu já estava no município de “Guará”. É quando vem uma serra de uns 8 km que eu larguei a bici morro abaixo. Faltava uns 20 km para atingir a Via Dutra. Achei que no final da descida estaria lá, mas ainda se seguiu outro trecho semiplano. Passava das 4 e meia quando atingi o trevo de encontro com a Via Dutra (uma subida à esquerda). Ali eu deixava a Estrada Real e “batia de frente” com uma das mais movimentadas rodovias brasileiras.

O trânsito pesado assusta, os caminhões parecem passar pertinho, tal a velocidade deles. Dá para pedalar bem rápido, cerca de 30 a 33 km/h, porque o acostamento é bem liso e eu não deixei por menos pq queria passar o menor tempo possível nela. Ainda bem que logo li a placa: Aparecida a 5 km. Bateu uma euforia! Pouco depois, surge a silhueta da grande basílica. Comecei a rezar. O grande objetivo estava próximo.

Ás 5 e 15 cheguei ao Santuário Nacional de Aparecida. A promessa foi paga, após mais de 5 anos, diversos adiamentos. Parei a bici em frente ao posto de Segurança e fui até uma das entradas da basílica para agradecer emocionado. O cansaço batia imenso. Ao sair dali, procurei logo onde ficar por perto. Decidi que pernoitaria por ali mesmo e assistiria a missa dominical pela manhã cedo. Um daqueles caras que fica te oferecendo hospedagem me falou de uma padaria na rua detrás onde por um preço justo encontraria um quarto e um dhuveiro limpos. E para lá eu fui.

O lugar permitia deixar a bike bem abrigada e o quarto com várias beliches ficaria inteiramente pra mim (aquilo só deve ficar cheio na época de grandes eventos em Aparecida). Ah! O que um bom banho não faz!… Reanimei. Saí, bebi uma boa água mineral e comprei uma tônica para gelar. Pedi ao Seu Antenor, dono da hospedagem “DormeQuieto” para fazer um macarrão mais tarde, lá pelas 7.

Lavei um pouco as partes mais empoeiradas da biciclieta, deitei uma meia hora e parti para a macarronada com + 2 ovos. Comi devagar, porque ainda estava bem exausto, mas saboreei aquela refeição com muito gosto. Voltei pro quarto, bati na cama e bummmmm! Não vi mais nada. Só o “sono dos justos”.

4º dia – 3/1 – Aparecida_SJCampos – 101km

Amanheci o dia às 5, com o canto de um curió “hino nacional”. Refeito da brabeira do dia anterior, segui para a Basílica a fim de assistir à primeira missa, das 5 e meia da manhã. Antes comprei um crucifixo que agora me acompanha. Nunca tinha ido a uma missa tão cedo na vida. E olha que a igreja estava cheia pra minha surpresa. Depois de agradecer não só a promessa paga, mas o fato de ter chegado bem até ali, benzi meus objetos (capacete, ciclocomputador, terço e crucifixo) vim rápido pra hospedagem, tomei meu desjejum e saí: 7:52h.

Como o Seu Antenor havia me indicado (aliás, abramos um parênteses aqui: sujeito honesto, bacana, nem me cobrou a macarronada da noite anterior, recomendo a hospedagem dele, pra aqueles que não querem frescura, mas simplificidade e um preço justo de um quarto limpo), segui alguns poucos km pela Dutra e na primeira entrada (vc vê um viaduto), entrei (Av. Itaguassu) e logo virei à esquerda para encontrar a antiga Estrada Rio-SP). O trânsito ali é bem calmo, embora logo em frente a uma pousada/haras eu tenha visto um cão ser atropelado (e morto) para minha tristeza. O fdp do motorista poderia ter freiado mas nem deu bola. Parei e puxei ele pra fora da pista e logo alguns empregados do haras apareceram. Deixei que eles tomassem conta dali em diante e segui meu pedal.

Na sequência passei um viaduto sobre a via férrea e depois segui numa uma reta que foi terminar no trevo da entrada de Roseira, meia hora depois. O clima estava bem ameno ainda. É um trecho rural com a Serra da Mantiqueira do outro lado do Rio Paraíba (veja foto no Picasa). Apertei o ritmo para lá pelas 8 e meia estar entrando no município de Pindamonhangaba.

Este foi o melhor trecho de pedalar desse dia. Muito liso, inclusive com ciclovia do outro lado da pista. Começaram a aparecer outras bikes, algumas “speed”, galera treinando pela manhã. Quando terminou o trecho em reta e cheguei noutro trevo, parei para perguntar num supermercado como fazia para prosseguir na Rio-SP “velha”. A caixa me explicou como fazia e fui embora. Não antes sem passar mais outra camada de filtro solar pq o sol já começava a “pegar pesado”. Tomei + 1 água e pedal!… Dali a mais 1 hora cheguei à Taubaté, bem mais movimentada que Pinda. Mas antes vc passa por Tremembé, onde tem uma área só de penintenciárias. Tinha movimentação nelas de visitantes. Em outros trechos, dava pra ver as margens da estrada com vários alagamentos, vazantes do Rio Paraíba, provavelmente porque havia chovido muito anteriormente.

Em Taubaté vc tem que entrar no centro da cidade e dá para se perder um pouco. Então não perdi tempo e comecei a perguntar como fazia para pegar a “estrada velha” e seguir para Caçapava. O pessoal na cidade ia me explicando: um ciclista me “deu uma carona”, passou comigo sobre os trilhos da linha férrea e disse que eu deveria passar pela casa de Monteiro Lobato, depois por um shopping e fui dar na zona industrial da cidade. No “bikely” eu tracei + ou – o percurso. A “palavra-chave” é perguntar como chegar ao bairro Quiririm. Dali em diante vai ser um caminho sem bifurcações e não tem erro.

A estrada para Caçapava passa bem perto de novo da Dutra e tem outra ciclovia à direita. Mas esta se encontrava “meio abandonada” e não segui por ela. Fui pelo cantinho, de vez em quando alguma subidinha diminuía o ritmo mas depois na descida compensava. E assim lá pelo meio-dia alcancei o centro da cidade de Caçapava. Muito calma, por sinal, aquele jeito bom de cidade de interior. Parei na “Padaria Central” e ali descansei meia hora mais ou menos, tomando um suco de laranja e um sanduíche de queijo quente. Liguei para casa para avisarem a minha amiga de São José que logo estaria por lá.

Para sair do centro de Caçapava e pegar em direção à SJCampos é tranquilo, só ir seguindo o fluxo principal, mas perguntar não faz mal. Do jeito que me explicaram como acharia a saída para S.José eu fui. Passei por um trecho tipo um “lixão”, uma área desvalorizada da cidade, mas ao cruzar um trevo entrei num bairro periférico de SJCampos e notei logo a diferença entre os municípios. Bem mais desenvolvido, tem logo uma ciclovia, bem sinalizada. Esta deve ter uns 5 km e termina perto de uma área industrial e alguns condomínios de luxo. Daí volta a estrada normal, praticamente seguindo o tempo todo ao lado da Via Dutra como marginal. Mas ainda andei um longo trecho, passando pela portaria de diversas fábricas, a maior dela foi a GM. Até que chegou um trevão já com trânsito mais pesado para “cair dentro” de São José pra valer. Vem um subidão e aí já estava na Avenida Pres. Juscelino Kubitschek. Num sinal mais à frente, entrei à esquerda e peguei uma via expressa que leva ao centro da cidade.

Fiz a última primeira marcha num subidão para atingir a Rua Siqueira Campos e enfim chegar à Matriz da cidade. Ali parei, rezei e agradeci o final da cicloviagem (13:45h). Ás 13:50h chegava na casa de minha grande amiga, de muitos e muitos anos, Maracy, que tão bem me recebeu (como sempre). Sem o seu apoio não teria feito este último trecho com tanta disposição como foi – 100km em 6 horas (incluindo as paradas). Tomei aquele banho, desmontei a bagagem da bike que lá ficou para um pedal de retorno que breve espero estar contando por aqui. Sem palavras para agradecê-la!

Depois de fazer uma boa refeição no Habib’s ali do centro, retornei no ônibus das 18:20h para o Rio. As imagens de todos os 500 km impregnadas em minha memória como aliás ficarão por muito, muuuuuuuuu…….ito tempo. Qualquer um que já fez uma cicloviagem, seja maior ou menor sabe do que estou falando. Aqueles que ainda não fizeram, tá na hora de fazer. Vão sentir uma emoção totalmente diferente de ir de carro, avião… Bici é pura integração: quadro+corpo+pedal+mente.

Não deixe de visitar o Picasa (fotos).

( P.S.: Obrigado por ter lido. )

February 3, 2010 - Posted by | Bike

8 Comments »

  1. Parabéns pela viagem e pelo relato. Já fiz Rio x Angra e sei como é difícil passar pelo túnel.

    Uma viagem solitária é uma experiência marcante. A ‘solitude’ é uma coisa fantástica! mas é coisa pra poucos! Aliás, tem gente que jamais saberá o significado desses momentos.

    Forte abraço,
    Sucesso!

    Comment by Fábio 'Muito DoiDO' - RJ | February 3, 2010 | Reply

  2. Serginho,

    Bateu emoção na leitura. Acho que quando eu for a SP vamos comer uma macarronada no Bexiga.

    Felicidades mil, que voce merece.

    Comment by flamary | March 6, 2010 | Reply

  3. Parabéns!!! Seu passeio esta sendo muito inspirador para mim, devo ir agora em outubro do Rio a Paraty na minha chubimbo, uma caloi aspem 18 marchas do início do século rsrs

    Obrigado, seu texto me deu ótimas dicas.

    Comment by Ronaldo Andrade | October 8, 2010 | Reply

    • Ok, Ronaldo. Se precisar de + dicas é só falar = deixar post aqui ou direto pro m.email: svicente99@yahoo.com. Ciclo[ ]’s

      Comment by svicente99 | October 14, 2010 | Reply

  4. Show de bola o relato.
    Um grande abraço,

    Comment by Vicente Sacramento | January 15, 2011 | Reply

  5. Belo relato da viagem!!! Me deu mais coragem pra fazer minha primeira cicloviagem, estou me preparando pra fazer Rio X Angra. Moro em Santa Cruz, vc passou por aqui. Um grande abraço…

    Comment by Quedson | September 8, 2011 | Reply

  6. Gostei muito do relato parabéns , estou planejando fazer Rio – Angra moro em Jacarepaguá , tenho treinado periodicamente sua historia é bem didática e esclarecedora e me deu mais coragem de prosseguir com o sonho de uma cicloviagem desta .

    Comment by Rogério de Oliveira | August 13, 2012 | Reply

    • Vai na fé, meu camarada! É um trecho muito bonito, vai gostar. Só como eu falei ter + cuidado no trecho dos tũneis, na passagem por Santa Cruz. E nas partes que ficar sem acostamento na Rio-Santos. Se puder ir no meio de semana, vai pegar menos movimento e também fugir de período de férias seria uma boa. Se der…

      Comment by svicente99 | August 21, 2012 | Reply


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