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4 dias na Estrada Real – Caminho dos Diamantes (4-7/set)

Serra de São José - Estrada Real - Caminho dos Diamantes

Serra de São José - Estrada Real - Caminho dos Diamantes

Segue abaixo o relato do que foi essa big aventura – duríssima mas recompensadora. As fotos estão no Google Picasa nos links:

  1. http://picasaweb.google.com/sv.anexos01/PedalEstradaRealCaminhoDosDiamantes1
  2. http://picasaweb.google.com/sv.anexos01/PedalEstradaRealCaminhoDosDiamantes2
  3. http://picasaweb.google.com/sv.anexos01/PedalEstradaRealCaminhoDosDiamantes3
  4. http://picasaweb.google.com/sv.anexos01/PedalEstradaRealCaminhoDosDiamantes4

[ Se quiser vá direto pro Resumo… ]

1o. dia – Diamantina / São Gonçalo do Rio das Pedras / Milho Verde [44km]

Antes de falar propriamente do início do pedal, vou deixar algumas breves palavras sobre como fiz para chegar no começo do Caminho dos Diamantes – Diamantina. Saí de São Paulo na noite anterior, às 9h. O ônibus, da Viação Gontijo, muito RUIM, as janelas todas “batendo”, um ar condicionado barulhento, 2 poltronas, eu observei, quebradas. E o banheiro… bem aquilo não se pode chamar de W.C. É qualquer outra coisa, menos um lugar higiênico para suas necessidades fisiológicas. E ainda me cobraram pra transportar a bicicleta (cerca de 23 reais), nunca tinha passado por isso, em diversas cicloviagens realizadas. Depois da parada em Curvelo, começou a parar em diversos pequenos locais tornando a viagem bem mais longa. Ouvi algumas pessoas dizerem que o que antes era feito em cerca de 12 horas, se estende agora por 14 horas (cheguei 11:15h).

Moral da história – onde q eu quero chegar com toda essa reclamação: se forem de São Paulo pra Diamantina, começar a E.R. não repitam esse trajeto que, mesmo sendo direto, é enganoso em termos de conforto. Dou a dica como ouvi de outros passageiros no ônibus: melhor pagar um pouquinho mais caro e pegar um leito de SP pra BH e chegando lá, pegar outro bem confortável pra Diamantina q acaba chegando no mesmo tempo, quando não antes. Outra boa dica é chegar no dia anterior e começar o pedal bem cedo. Só não fiz assim, por impossibilidade absoluta de prazo (“o trampo”).

Bom, remontada a bike, iniciei pelas ruas pedregosas de Diamantina, procurando logo me informar onde ficava a saída pra E.R. (é na direção mais adiante da Rodoviária, entrando numa rua à direita e vc começa a descer. Vai passar uma pousada, onde tem um marco para se tirar fotos. Logo adiante, numa esquina, com a ladeira abaixo, fica o chamado MARCO ZERO da E.R. Isso já era quase 2 da tarde, porque fiz um lanche claro antes de pedal na esttrada. O início é bem tranquilo, com algumas poucas descidas mas uma paisagem muito peculiar das rochas pelo caminho. Parecem todas “ecaixadas” a mão! Logo veio um descidão e 2 carinhas até me ultrapassaram, leves q estavam, mas pra curtir um down-hill. Bati a mão pra eles e deixei q seguissem.

Lá no final passa um riacho (como sempre acontece na E.R.) e quando já me preparava para encarar a subida, um deles me chama e pede por um “michelin”. Logo notei q precisavam de ajuda pois estavam ali SEM NADA, só com a bici e nada pra consertar o furo. Me dispus a ajudar, afinal ciclista q é ciclista não vai deixar outro companheiro “na mão”. Desmontei a roda (traseira), fomos procurar o furo q só localizado na água do riacho. Era no próprio remendo. Sabe aqueles remendos tipo “estrelinha”? Pois é, aquele mesmo q não presta, só pra dar dor-de-cabeça. Peguei 2 dos meus e tapei novamente o furo e ficou bom. Tornamos a encher e a bike do cara reviveu. Só então, perguntei o nome dos manos: André e Virgílio. Dei umas dicas sobre as bikes deles (câmbio muito fraco para um perfil tipo E.R.), bati 2 fotos no cell e deu pra bola. (Isso lá se foi mais uns 40min.)

Encarei o subidão ainda cheio de disposição, afinal seria a primeira de tantas outras, mas sem botar mt pressão. Curtindo a paisagem foi passando o tempo, em mais uma hora cheguei a uma vilazinha conhecida como Vau. A tarde caindo, lá pelas 5 e pouca eu atingi São Gonçalo do Rio das Pedras. Vilarejo bem pequeno, passei batido em direção ao próximo q seria o Milho Verde. Não tinha maiores dificuldades no caminho, praticamente nenhum veículo de 4 rodas passava, mais eram motos. Só que lá pelas 6 e meia escureceu geral, tive que por a lanterna / farol e fazer um pedal noturno por mais uma meia hora.

No Milho Verde, no primeiro local aberto tratei de “preguntá” por hospedagem. A dona do local me deu umas dicas e terminei ficando na mais fácil, na beira do caminho, um tal “Hotel Rancho Velho”. Tinha um garoto na porta (“Uânder”, talvez se escreva assim…) q me recebeu na boa, disse o preço – 30,00 s/ o café, já que eu pretendia sair mt cedo no dia seguinte. O quarto era com banheiro fora, mas bem limpo. Larguei a bike na própria área do café e fui tentar trocar a nota de 50 no comércio a frente. Acabei percebendo q era uma oficinazinha de bikes: aproveitei pra pegar uma câmara de ar nova q havia esquecido em casa. Daí poderia tomar o banho e partir para o sono merecido.

Ah!!! sim… mas antes fui ver um local cuja placa anunciava “comida caseira”. E de fato, era, das boas! Feita pela Regiane. Fogão a lenha, vc entrava na cozinha, servia seu prato, tudo com muita simplicidade mas ao mesmo tempo todo o capricho e gosto q quem conhece a cozinha mineira, sabe o que eu tô falando. Quem não conhece, TEM QUE EXPERIMENTAR. Um angu de fubá fresquinho, couve bem cortadinha, uma carne de panela q o cheiro vai longe. Então, ali eu refiz minhas forças.

Primeiro dia no meu retorno à E.R. feito com sucesso, fechado com chave de ouro na vila do Milho Verde.

2o. dia – Milho Verde / Serro / Alvorada de Minas / Itapanhoacanga / Santo Antonio da Tapera [80km]

Iniciei o segundo dia bem cedo, para aproveitar aquele que seria o mais longo dos 4. Lá pelas 5:50h já estava deixando para trás as casas da pequena vila de Milho Verde. Logo vem uma descida onde no fundo uma placa indica (à esquerda) a Cachoeira do Carimbó. Fui lá pra ver. É mt perto da estrada. Porém, ao lá chegar achei o rio com pouquíssimo volume d`água, em função do tempo seco. Fiz rapidamente meu desjejum ali sobre as pedras do rio e depois parti estrada afora. Veio logo uma subida, passando pela entrada do Parque Estadual do Itambé. Do alto dei pra observar novamente as casinhas do “Milho Verde”.

Seguindo pela direita ainda subindo vamos dar no lugar conhecido como Três Barras. Vc desce um pouco mas depois vai encarar uma outra subidona “daquelas”!…. Passei por um trecho bem complicado porque estava em obras, um caminhão inclusive vinha jogando água na pista de terra, não sei bem pra quê… Só pra complicar mais ainda a pedalada. Até que lá no alto o piso da estrada ficou bem compactado e começou uma bela descida, um dos trechos mais belos daquele dia inclusive. Fazia inclusive um clima bem frio. Máquinas pelo caminho (tratores, terraplanadoras…) anunciavam que logo aquele pedaço seria mais um dos da E.R. que não seria mais piso de chão, sendo asfaltado. Quem viu, viu, quem não viu… Vai passar a ter que conviver com mais barulho de automóveis e caminhões. Uma pena eu acho.

Mais uma meia hora e chegou o trevo que encontra o asfalto que leva em direção à cidade de Serro. Ela fica logo atrás de uma rápida subida. Após passar pela periferia da mesma você vai avistar o Centro Histórico onde ficam diversas igrejas bem antigas e prédios bem conservados. Achei bem preservada a arquitetura, só não curti que as igrejas estavam TODAS fechadas, apesar de ser domingo pela manhã. Não consegui ver o interior de nenhuma delas. Bati as fotos daquele lugar legal que faz recordar o tempo Brasil Colônia e fiz uma parada para um lanche reforçado. Comprei algumas frutas e pedi numa pequena venda a um senhor do lugar que fizesse um sanduíche do “famoso” queijo do Serro. Ele tirou um para que eu mesmo me servisse. Uma delícia! Vale a pena, hem, gente!?

Conversei um pouco com aquele senhor bem hospitaleiro sobre a tranquilidade de Serro. Ele disse ter sempre vivido ali e não trocar aquele vida boa por coisa nenhuma. Eu também se fosse ele não pensaria nisso. Mas a cicloviagem precisava seguir adiante. Ele me falou que o trecho até Alvorada de Minas seria fácil, por estar todo asfaltado. De carro, dava uns 15 minutos (16ikm). Fiz em uma hora mais ou menos. Realmente, foi tranquilo, apesar das subidas e descidas do caminho. Mas o asfalto estava novo e o movimento reduzidíssimo. A maior subida fica próximo a um trevo que aponta para um lugar chamado “Cachoeira” (19km dali, por estrada de terra). A chegada em Alvorada de Minas é também pelo alto. Não demorei por lá, passei quase direto para adiantar. Bati uma foto da igreja principal e parei num posto da Polícia Militar para pegar água geladinha que um guarda gentilmente me cedeu. Perguntei a ele da segurança do local, ele falou para eu me despreocupar – o lugar é MUITO tranquilo! Mas avisou que dali pra Conceição do Mato Dentro as subidas seriam duras.

De fato, logo saindo de Alvorada veio um longo… LONGO trecho subindo e com o sol e o calor que começou a fazer, aquilo me “quebrou”. Bem lá no alto eu parei e tive que descansar por uma meia hora mais ou menos. Fiquei debaixo de uma pedra e aguardei a força nas pernas voltarem. E vieram subidas e descidas até que depois começou finalmente a descer uma estrada com um piso mais consistente que facilitou. Vi uma venda com uma bica d`água e parei para “reabastecer” e curtir uma sombrinha. Tomei um “Mate Couro” geladinho e ganhei força novamente. O dono falou que Itapanhoacanga ficava logo à frente. A entrada realmente era, você dá uma guinada de 90 graus à direita, largando a principal. E depois SOBE-SOBE novamente. Lá no alto vai ver o vilarejo de casas abaixo. Torna a descer e entra na cidadela.

Parei pra perguntar num barzinho como que fazia para sair em direção à Tapera. Nisso já era quase 2 e meia da tarde. Tomei um picolé, conversei com um cara da região que (como quase todos) ficou impressionado com a minha disposição de pedalar na E.R. Disse q o negócio dele era só “bola”. Falou sobre os vários troféus que estavam expostos ali no bar e contou algumas vantagens sobre o seu time. Despedi-me e fui à luta. Me avisaram que agora viria o pior. E VEIO!….

Cara, logo na saída de Itapanh…. (q nome, hem???) vem o cartão de visitas: uma subida que parece que vc tá indo PRO CÉU. É coisa de enlouquecer. Empurrei sem dó. Aquilo é coisa pra animal, não pra ser humano. Depois vem um trecho um pouco melhorzinho que ainda dá pra pedalar. Mas depois vem uma sucessão de pequenos morros que judia de vc. Fiz com calma… empurrando quando necessário. Lá em cima também vc descortina uma vista de todo aquele vale que reanima. Dei umas paradas, uma boa olhada pra respirar. Então, vc faz uma curva e dá de cara com a Serra de São José. O trecho mais bonito de todo o percurso que eu fiz. Babei!

Fiz devagar, batendo várias fotos, apesar de a tarde já estar caindo, a luminosidade não ser a mesma. Mas sem dúvida é um lugar que valeu MUITO a pena de ter chegado ali, todo o sacrificio, todos os “empurra-bikes”. Respirei, olhei bem para aqueles 4 rochões de pedra, o vale lá embaixo. Mas ainda faltava subir mais, eu pensei que ali tinha terminado… Nada, toca a subir. A coisa parecia interminável. Até que enfim, vem uma descida radical, bem punk mesmo, acho que ficou uns 15 minutos só morro abaixo, bem dentro de um trecho de mata mais fechada. Bem maneiro. Pra quem quer DH, ideal.

E no final está a vila de Santo Antonio da Tapera, bem simples. Tem uma bela igrejinha na entrada que eu pedi a 2 garotas pra tirarem uma foto. Aquele dia merecia. Entrou para a história como o dia mais difícil de pedal que eu já havia feito. Pensei que tinha sido o trecho Paraty-Cunha, mas aquele fora pior. “Rebentou!” O rendimento nos outros 2 caiu bastante em função do esforço além do normal. Não recomendo a ninguém fazer estes 80km num só trecho, ainda mais se estiver puxando bagagem. O desnível é imenso. Uma serra atrás de outra serra, cara foi “demais da conta”, como dizem os mineiros.

Andei pela vila procurando uma pousada mas acabei ficando mesmo na “pousada da Eni”, a única aberta das 3 que disseram haver na cidade. Bem simples, mas tinha um quarto (onde nele mesmo deixei a bike) e um banheiro limpo pra tomar banho. Ainda mais que a Da. Maria Eni falou que prepararia uma “janta” pra mim, não pensei em outra coisa, só em descansar. Tomei o banho, uma coca-cola, deitei um pouco… Lá pelas 7 e meia ela falou q a comida ‘tava pronta. Me chamou lá na cozinha e falou para que eu me servisse. Comi com gosto, apesar do estômago ainda embrulhado de tanta pedalar e empurrar morro acima. Ela fez um omelete, tinha um feijão feito na lenha bem saboroso.

Mas assim que acabei fui pro quarto e CAPOTEI literalmente na cama, apesar do sonzão do forró que rolava solto na frente da pousada. A galerinha lá fora na forrózada e eu só queria saber de Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz……………….

3o. dia – Santo Antonio da Tapera / Conceição do Mato Dentro / Morro do Pilar [66km]

Levantei cedo e fui logo arrumar melhor a bolsa sobre o bagageiro, pois a distribuição não estava igual para ambos os lados o que acabou até prejudicando o dia anterior. Também separei na pochete dianteira algumas coisas que considerei dispensáveis para despachar nos Correios de Conceição. E aí a Dona Eni me chamou para tomar o “café”. Fui até a mesa e vi um queijo gostoso sobre ela, além de bolinhos e pães/biscoitos de queijo típicos da culinária mineira. Estavam apetitosos e facilitaram com que eu fizesse um ótimo desjejum.

Terminado, bati ainda algumas fotos da pensão pra recordação e acertei a estadia com ela ($35). Deixei a Tapera lá pelas 8 e pouco. Numa subida rápida o correr de casas logo some entre as pastagens. O caminho pra Conceição não começou difícil, com poucos desníveis. Porém, com uma hora de pedalada noto que o pneu da frente está esvaziando… e rápido. Vi logo de onde saía o ar e parti para a troca. Virei a bike de pernas pro ar e em pouco mais de 20 minutos já tinha posto a nova câmara. Só o que havia furado é que não consegui achar, estranhamente, naquele momento. Mas toquei o barco assim mesmo.

Andei mais uns 10 minutos e tô notando novamente que o pneu se esvazia gradativamente. Ôpa!!! É furada… O que havia furado da primeira vez continuava lá no pneu. Não tive nada, em um outro local bem mais apropriado, próximo de um rio eu tornei a parar e tirei a câmara pra remendar. Mas só que desta vez olhei minuciosamente o pneu até que um espinho se revelou, entalado na borracha do pneu. De certo modo “mimetizado” por sua cor em relação ao barro que recobria o vulcanizado tinha passado despercebido na parada de antes. Mas desta feita não me escapou! Fiz os remendos na calma, chequei a efetividade mergulhando a câmara no riacho.

E depois de bombar bastante ar pra dentro do pneu, segui adiante. Mais ou menos 10 da manhã já eram. Pouco adiante passei por um vilarejo chamado “Córregos”. Tinha uma boa pousada por ali na beira da estrada, com carro de apoio e tudo mais. Mas não parecia das mais em conta… Bem, pé no pedal e fui me aproximando de Conceição. A maior parte do tempo você desce, mas de vez em quando pinta uma subida, só que nada comparável a do dia anterior. O problema é que eu já estava literalmente “quebrado”, bem desgastado pelo esforço pauleira de domingo. E “alguma coisa” não me deixava desenvolver uma velocidade mais rápida.

Dali vc desemboca numa estrada mais movimentada e seguindo em frente vai andar mais uns 7, 8 quilômetros até chegar na periferia de Conceição do Mato Dentro. Passavam muitos veículos nessa estrada e soltavam um poeirão na sua frente terrível. Rezei pra aquilo acabar logo. Chegando no asfalto da cidade (13:00h), notei o estômago meio embrulhado e comprei um sal de frutas numa venda. Mandei pra dentro na esperança de melhorar rápido. O centro histórico da cidade fica numa ladeira que subi devagar (as ruas são feitas com aquelas pedras de cantaria, bem comum nas cidades históricas de MG). Achei rápido a agência dos Correios e ali parei para postar uma caixa que seguiu pra Niterói contendo um 1,5kg de excesso que transportava. Não parece, mas o efeito psicológico de se livrar de peso extra é interessante.

Então, parei num mercado e pedi um refresco de abacaxi ao qual misturei com um chá de boldo-do-chile para ver se o estômago melhorava. A coisa `tava feia pro meu lado pois o apetite por alimento sólido era zero e como que eu ia pedalar desse jeito. A disposição era praticamente nenhuma, eu pensava mais era em descansar e quando imaginava mais de 30km até Morro do Pilar, a pergunta que não queria calar era: “- Cara, vc acha que dá?! Vale a pena?!”

Andei mais um pouco e cheguei a uma pequena praça em frente ao Fórum da cidade. Ali tinha um bom local para descansar o pouco e esperar o corpo se recuperar. Foi o que fiz. Encostei a bike no meio-fio e até tirei uma soneca. Tranquilidade aquela cidade de interior. Vc não fica cheio de medo em todo o lugar q vai estacionar sua bici. Rio e SP jamais voltarão a ser desse jeito. Por isso temos q de vez em qdo. “fugir” para um lugar assim. Bem, fui melhorando aos poucos. Usei o banheiro do Fórum e peguei um pouco d’água no bebedouro. Reanimado, bati mais umas fotos e perguntei qual era o caminho de saída pra ER.

Após me informar e tomar uma coca numa sorveteria, começou uma subida forte pelo asfalto. Vc passa pela Rodoviária e aproximadamente após 3km subindo vem uma entrada à esquerda para pegar a estrada de chão para Morro do Pilar. Começa um trecho mais fácil e bonito por entre fazendas. Segue descendo até q 10km depois cruza-se um rio onde uma formação de pedras bem interessante forma um cânyon. Parei, curti a beleza natural daquele local, bati fotos. Tem inclusive um penhasco natural q forma um verdadeiro trampolim. Quem tiver a coragem de dar um salto dali e mergulhar!….

Bom, aí começou a parte da subida forte. No início subi com vontade, devagar mas firme. Mas pouco a pouco a resistência foi sendo minada e parei, empurrei um pouco. Mas ainda segui firme. Lá na frente é que o bicho ia pegar. A tarde caindo, a fome batendo, mas incrivelmente eu não conseguia me alimentar o suficiente. Em outro ponto bem alto, parei para admirar as montanhas. Encontrei outro biker pelo caminho que vinha de Ipiúma. Me alertou que pela frente o piso estava bem ruim para pedalar e que teria de empurrar. Disse a ele: “- Faz parte!” Nos despedimos e toquei pra frente. Depois de subir mais um pouco e pegar um pequeno trecho plano veio uma descida radical. Pra segurar no freio pq senão eu “dançava” do jeito que estava a estrada. Cheguei ao fundo de um vale onde o rio rasgava uma mata virgem.

E pra subir??? Cadê pernas? Não tinha mais. Relaxei e fui empurrando na calma. Faltava pouco (eu achava, pelo menos… uns 7, 8 km). Escureceu geral: 18 horas. Pus a lanterna. Levei uma meia hora para vencer aquele desnível do vale. Do mesmo jeito q se descia radicalmente se subia. Quando atingi o alto voltei ao pedal, mas bem devagar porque de lanterna a visão é curta, não dá pra se arriscar. Vez por outra eu parava, descansava e apreciava a luz das estrelas, apagando a lanterna. Só quem sabe o que é o céu de lugares distantes da cidade tem noção do que é a maravilha de vc poder curtir a visão das infinitas estrelas da Via Láctea e das galáxias mais distantes. Cai o queixo, tá ligado?!

Até que pintaram as primeiras luzinhas de Morro do Pilar (19:20h), que chega timidamente e logo depois de subir algumas ladeiras vc tá no centro. É bem pequena. Quis saber logo onde que tinha um Posto de Saúde para poder pegar algum remédio, medir a pressão, pois me sentia bem desgastado do tiro desse dia. Era mais no alto. Subi mais 3 minutos e bati na porta. Veio uma enfermeira me atender e disse q médico não tinha mais. Mas mediu minha pressão, pulsação, ‘tava normal. Fiquei tranquilo, então era só mesmo um grande cansaço físico e um enjôo. Perguntou se havia tido algum vômito, falei que não. Deu-me um Plasil e disse para eu voltar amanhã pra falar com o médico.

Liguei pra casa, dei notícias, peguei umas dicas de como poderia melhorar. Tinha um hotelzinho bem em frente: Hotel Monsenhor Santos. Foi ali mesmo q fiquei para recuperar as energias. Depois de um bom banho e um rápido lanche sem gordura, “arriei os 4 pneus” na cama do quarto bem simples e só vi quando o dia seguinte ia amanhecendo.

4o. dia – Morro do Pilar / Itambé do Mato Dentro [42km]

O quarto dia amanheceu pra mim com certa incerteza. Até que bateu uma vontade de parar e pegar o ônibus em direção em BH dali mesmo. Mas após ver a mesa do café da manhã do hotel, bateu um bom apetite, comi um bom queijo, tomei outro bom copo de leite de soja com “ração humana” e me senti bem disposto para encarar o desafio das subidas do caminho para Itambé. Depois de reacomodar a bagagem na bike parti lá pelas 8. Comecei subindo e peguei uma saída de Morro do Pilar que levava à cidade de Itambé do Mato Dentro mas não pelo trecho da ER. Comparando com o que dizia a planilha baixada do site percebi que ia na direção errada, então retornei e me informei melhor. O primeiro senhor que tinha me dito para ir por aquele trecho não percebera que eu queria seguir, de fato, pela ER. Então desci e achei a ponte como desenhado na planilha.

Antes, porém, arrumei um pouco de folhas de boldo com um cidadão local que gentilmente pegou em sua horta caseira. Amassei-as e deixei em infusão no Gatorade para ir tomando à medida que pedalava. Um tempo depois já não sentia mais os enjôos do estômago. O caminho começa tranquilo com algumas descidas e uma certa facilidade de pedalar. Uma hora depois quase parei em uma bica ao lado de um poço raso do rio à margem da estrada onde tirei umas fotos – água gelada!!!

Toquei para frente passando por outro trecho descida onde uma placa dizia haver um sítio arqueológico. Logo veio uma ponte que separava os municípios Morro do Pilar e Itambém do Mato Dentro. Aí, sim, começam as duras subidas do percurso. A primeira parte eu venci com tranquilidade, mas a serra é longa e foi minando minhas forças devagar. Lá pelo meio-dia ainda continuava a subir e não tive outro jeito senão parar para descansar porque o sol estava forte, a água já tinha esquentado (esqueci de por o Hydrocamel pra congelar na noite passada…).

Depois de descansar, segui a pedalada, sempre subindo devagar, empurrando nos piores trechos. E então veio a melhor vista de todo o percurso: vc dá de cara com o Canyon Travessão da Serra do Cipó. Longe, mas dá pra ver bem. Vieram as boas lembranças da vez que eu andei fazendo trekking por lá, uma aventura sem par e que não vai ser esquecida jamais. Não deixe de fazer pois foi uma das áreas mais preservadas em termos de parque natural que já visitei. Tem 8 anos mas espero que continue o mesmo.

Depois de admirar a Serra do Cipó ao longe, segui em frente mas agora o caminho ficou aplainado contudo surpreendemente pior de pedalar. Pois era um areião misturado com cascalho que garrava totalmente a bike. Fazia uma força danada pra pedalar mas quase sem sair do lugar. Parava de monte pra empurrar, aquilo foi de certo modo revoltante. Acho que pela passagem de muitas motos e 4×4 off-roads o piso da estrada foi bem danificado, o que tornou a atividade de pedalar um sacrifício pouco compensador. Não recomendaria muito este trecho. Vinham algumas leves descidas mas cadê que vc pedalava!! Uma m****. Bom, o tempo foi passando e lá pelas 2 uma placa anunciava que eu estava a uns 8km de Itambé do Mato Dentro. Ia começar a sair daquele planalto e descer.

Pensei que as coisas se tornariam mais fáceis mas o piso da ER não deixava. Senti sede, também, porque a água estava inteiramente quente, horrível de beber. Até que arrumei alguns goles em um local que parecia ser um galpão de reciclagem, fechado naquele feriado de Sete de Setembro. Foi a “gota d’água” que permitiu completar o percurso. Nesta parte a visão já não era tão interessante, sem grandes atrativos, bastante comum em relação a qualquer estrada de interior do Sudeste. Mais abaixo vi as pequenas casas dos arredores de Itambé, até que adentrei o piso de paralelepípedos da cidade, pequenina por sinal. Depois, vi na internet que não chega a 5 mil habitantes. Depois de passar pela minúscula Prefeitura avistei o ponto de ônibus da Saritur onde definitivamente foi encerrada esta saga de 4 dias pela ER: 3 e 15 da tarde.

Exausto, mas em condições tranquilas, fui me refazendo aos poucos com um Gatorade gelado e mais uma lata de Tônica. Aos poucos, desmontei a Kona para po-la dentro do mala-bike e esperar o busão (bem “caidinho”, diga-se de passagem) partir dali às 16:30h e me levar de volta à BH. A viagem demoraria mais 4 horas ainda enfrentando um engarrafamento pelo caminho, antes de chegar à Santa Luzia. A ligação de Itambé do Mato Dentro para Ipoema foi feita igualmente pela ER, a mesma que eu faria se tivesse que pedalar. De forma que não achei muito convidativo fazer mais este trecho, pois só iria encarar muita poeira e cascalho. Ou seja, é uma estrada comum dessas que passa carro, caminhão e ônibus, ou seja, nenhum privilégio para se passar por bike, muito pelo contrário.

——

Portanto, aqui ficam as últimas frases deste relato (escrito em alguns dias, claro) sobre minha experiência de 4 dias na ER, pelo Circuito dos Diamantes, desde seu início em Diamantina. Valeu??? Óbvio, sempre vale. “Todo sacrifício é válido quando a alma não é pequena” – alguém já me disse isso, não sei onde. Mas tive que ter muita determinação, resistência, coragem, disposição em duros momentos do caminho. Foi uma boa mostra do que o conjunto homem+bicicleta é capaz de enfrentar quando a dupla está afinada. A Kona esteve 100%, eu talvez nem tanto, mas juntos superamos estes quase 240km pelo interior de Minas e vi paisagens que jamais sairão da minha mente. Algumas ficaram registradas nestas fotos do Picasa, mas a emoção sentida é impossível de se traduzir por mais que o ângulo e a qualidade da foto sejam de excelência. Tem que estar lá. Tem que ter passado lá. Sou grato a Deus por ter me deixado fazer mais esta. Valeu. E boa!


Visite o Site oficial da Estrada Real na internet. Onde peguei todas as dicas para fazer este trecho, planilhas, altimetria, indicações de onde ficar, tá “completão”, muito bom mesmo. Dá para se planejar e fazer sozinho na boa.

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September 23, 2010 - Posted by | Bike | , , , ,

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